sexta-feira, 19 de maio de 2017

A conjuntura e a angústia. Temos saída?

Pra nós, militantes, que vivemos envolvidos no debate político, momentos turbulentos como esse não tem outra melhor palavra para se definir do que: angústia.

E eu angustiado, tenho duas formas de relaxar.

1- Rindo dos Memes maravilhosos que a internet nos proporciona;

2-Escrevendo. Justamente porquê gosto de compartilhar minhas angústias e posicionamentos, ouvir novas opiniões, desabafar, contribuir pra circulação de informações e discussões por fora dos meios tradicionais de imprensa.

Sei que pouquíssima gente lê os famigerados "textões". Nossa sociedade hoje é a de "140 caracteres", de imagens e vídeos (e olhe lá). Mas ainda assim escrevo, talvez mais pra mim mesmo do quê para os outros.

Escrevo também porquê muita coisa me incomoda. Nesse mundo informatizado, a velocidade e a quantidade de informações e a necessidade do rápido compartilhamento gera muita confusão, desonestidade, intolerância, imediatismo, desespero.

Eu, particularmente, tento sempre ler bastante, de várias fontes, compreender melhor para opinar. E ainda assim em vários momentos cometo os mesmos equívocos do imediatismo que tento tanto evitar.

O fato é: já há alguns anos nada do que acontece pode ter explicações convencionais, como se pudera dar em outros momentos, e tampouco se pode criar prognósticos dou que estaria por vir. E isso nos obriga a tornar nossa análise e avaliação da conjuntura - freneticamente modificada a cada segundo - muito mais apurada.

Mas a cada novo episódio traumático, reforço minhas convicções.

Vejam só, é o capitalismo sendo desnudado.

Não se tem poder sem dinheiro, não se tem dinheiro sem poder. Não se torna um grande executivo sem favores e informações privilegiadas de autoridades e políticos, não se torna uma autoridade ou um grande político sem financiamento de grandes executivos.

Nisso estão todos quites. É parte do sistema. No Brasil e no mundo, a diferença é que aqui persiste o sentimento de colonizado, fornecedor de matérias primas e vendedor de patrimônio às corporações e bancos que dominam o mundo, é assim há 500 anos.

Em nenhum momento da história nem a política nem a luta de classes foi constituída de maneira pura, exatamente de acordo com que versam os manuais histórico-sociológicos, a vida real é dinâmica e exige respostas rápidas e posturas firmes. Nesse sentido é preciso compreender as disputas que existem no seio das contradições do estado capitalista.

Levando em consideração que não vivemos um período pré-revolucionário ou de efervescência das massas (algo que pode vir a acontecer) precisamos, portanto, nos apoiar em três pilares.

1°- Fazer a defesa da política como solução de conflitos. Sem política só existe tirania. E quem corre por fora, tentando deslegitimar instituições e personagens políticas apresentando uma alternativa populista é o fascismo, e ele cresce justamente em tempos de crise (econômica, política, ideológica e identitária), obviamente que pode ter características diferentes em cada tempo histórico, mas sua essência se assemelha.

2°- É preciso ter lado e projeto. A luta de classes também se expressa no antagonismo de programas que disputam o estado. Existem duas saídas para a recessão econômica no Brasil: a) ou se arrocha os direitos dos trabalhadores para facilitar a contratação pelos empresários e aumentar o emprego, além de diminuir os gastos do estado a fim de manter o pagamento de juros que daria uma certa confiança aos investidores estrangeiros que continuam pilhando nosso país; b) ou acabamos com superávit primário, reduzimos juros e investimos PESADO na industria, na construção, transportes, inovação, pesquisa, etc. etc.a fim de retomar o consumo e garantir soberania na produção nacional e exportação de bens com valor agregado.

3º- A pavimentação do caminho pra retomada da democracia não será iluminada por uma vanguarda revolucionária. Se a esquerda se isola, ela será derrotada. Portanto é preciso uma pactuação entre setores democráticos que tenham disposição de construir esse projeto nacional de retomada do desenvolvimento e de rearticulação da política, que passa necessariamente por uma Reforma Política.

Isso é possível? Sim.
É fácil? Com certeza não.

Por isso é necessário habilidade política, para construir uma frente ampla sob a batuta da esquerda, é preciso apresentar um projeto, que o centro-político fragmentado e oportunista jamais apresentará, porquê não se constitui em torno de programa. Conquistar esse setor é fundamental para levar a cabo as mudanças que queremos. E ainda mais fundamental é o enraizamento de nossas ideias com o povo, a retomada do diálogo de base, as organizações descentralizadas e cotidianas, que deem forças para nosso projeto.

Assim superaremos essa crise. Sem imediatismos, sem sectarismo, sem desonestidade. Com amplitude e trabalho.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mirem-se no exemplo daqueles estudantes da UnB

O ano de 2016 certamente estará marcado em toda a história política brasileira pela enorme reviravolta na conjuntura que nos apresentou em tão pouco tempo, óbvio que carregando elementos que transcendem esse recorte específico, mas onde se encaixa o estopim e a ruptura de uma enorme crise política, cujos desdobramentos ainda não se sabe onde poderão chegar.
Mas quero aqui redirecionar o espectro de análise da conjuntura para movimento estudantil, e sua resposta à esse momento. Nesse caso tanto 2016 quanto 2017 são anos marcantes, individualmente em minha vida tenho certeza, mas imagino que também na militância estudantil e dos movimentos sociais de esquerda e progressistas como um todo. E aqui quero falar sobre a vitória da Chapa "Todas As Vozes" no Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília, que é o maior marco representativo disso, e se trata também de uma ruptura que demarca o ápice de todo um processo que não se inicia agora e tampouco está encerrado.
Para melhor compreender o desenrolar dos fatos precisamos voltar até 2011, ano em que um grupo local de estudantes liberais, denominado de Aliança Pela Liberdade, venceu as eleições e passou a dirigir o DCE-UnB. Desde então foram pouco mais de 5 anos de gestões que notadamente inverteram a lógica do movimento estudantil, desestimulando o debate político e transformando essa entidade tradicional e histórica da luta dos estudantes em uma espécie de "gerência estudantil", calcados sob um discurso liberal de universidade, que pouco preza pela defesa de seu caráter gratuito, crítico, emancipador e que, ao contrário do que defendeu o idealizador da Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro, levantava um projeto de Educação Superior muito mais voltada ao tecnicismo, à formação de excelência de uma mão de obra preparada para o mercado, uma visão individualista e mercadológica.
As sucessivas derrotas da esquerda no DCE-UnB se deram por inúmeros motivos, e cada momento tem suas próprias razões de acordo com os elementos de seu próprio tempo, mas certamente um elemento análogo a todos esses anos foi o enraizamento do discurso anti-politizador e liberal entre os estudantes e a dificuldade da esquerda de se unir em torno de  um projeto que se contrapusesse a essas ideias, pelas divergências que são naturais entre as várias vertentes da esquerda, e que em essência não devem ser vistas como um problema, visões e métodos diferentes sempre existiram em qualquer postura ideológica que se assume.

Mas o grande fortalecimento dos grupos liberais já preocupava cada vez mais os campos da esquerda, que há alguns anos vinham dialogando e tentando diminuir as barreiras para a construção da unidade. Até que no ano de 2016 vivenciamos um grave processo de brutal ruptura das instituições democráticas no Brasil, com um golpe de estado que destituiu uma presidenta da República, seguido de uma agenda de retrocessos e ataques à direitos estudantis e trabalhistas e uma inversão do papel do estado brasileiro. Esse novo contexto levou os estudantes a terem papel protagonista na resistência em defesa da democracia e dos direitos conquistados.
A Universidade de Brasília foi fortemente marcada por esses processos de resistência. Desde a construção do Comitê em Defesa da Democracia, o Festival "Inquietação Pela Democracia", inúmeras assembleias, passeatas, debates, mobilizações que reacenderam a chama da organização estudantil e consequentemente aproximaram todos os campos da esquerda na luta cotidiana, no dia-a-dia da construção das atividades, e num companheirismo que estabeleceu uma relação respeitosa entre a militância. Todos esses elementos, somados à necessidade urgente da resistência contra os ataques à nossos direitos, foram os definidores de um processo de unidade que se iniciou no apoio à candidatura vitoriosa da professora Márcia Abrahão para reitoria, que também se contrapunha a um projeto mais conservador de universidade conduzido pelo ex-reitor Ivan Camargo já muito criticado pelos estudantes, e que teve prosseguimento na eleição do DCE e certamente marcou o movimento estudantil, não só na UnB, mas no Brasil.

O grande saldo positivo do desenrolar desses fatos, para além da derrota de um projeto neoliberal e despolitizador de universidade, foi a demonstração prática de que é possível construir ações objetivas em defesa dos estudantes, da universidade pública e mesmo de um projeto de sociedade, respeitando as divergências metodológicas e mesmo de cunho de análise teórica das diferentes vertentes da esquerda. A convivência na construção da luta demonstrou que muito de antigos preconceitos retroalimentados pelas disputas do movimento estudantil se tornam inócuas quando não estão no centro das decisões, mas que no contrário, quando se tem um programa claro, construído a todas as mãos, que norteie a ação do coletivo, os estigmas e atritos se tornam menores.
Pois bem, não é novidade pra ninguem que esse processo foi longo e demandou o esforço e maturidade que todos coletivos políticos e estudantes identificados com o projeto da Chapa "Todas as Vozes" conseguiram alcançar. Participaram da chapa diversas agremiações políticas de juventude, ligadas ou não à partidos de esquerda, além de um grupo local que se autodenomina "Articulação e Resistência", fundado no desenrolar da luta contra o golpe e reúne estudantes que não se organização em organizações políticas nacionais, e também de estudantes que se dedicaram à proposição do programa e da organização da campanha, mesmo sem estarem em qualquer coletivo.

A bandeira da UNE hasteada no DCE e que esteve nas camisas ou nos punhos da militância em toda a campanha demonstram também como essa entidade de 80 anos é importante para a construção da unidade da esquerda no Brasil. Individualmente não tenho dúvidas que a eleição de 2016 do DCE-UnB foi um grande aprendizado para mim, especialmente sobre amplitude e diálogo. Espero também que coletivamente todas organizações políticas e militantes e sobretudo a União Nacional dos Estudantes, em Brasília ou no Brasil aprendam com isso. Com maturidade e respeito é possível vencer nos momentos que exigem unidade.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

amor de planalto

Procura se um amor convexo
Mas nem tão complexo
Muito mais que taciturno
Tampouco somente noturno

Que seja desalinhado
Da asa até o lago
Mais que monumental
Ao atravessar o eixo central

Que não seja um engano
A caminhar pelo plano
Mas esteja ao meu lado
No por do sol do cerrado

E a imensidão azul do céu
Cairá como um véu
Em nós por qualquer parte
Na singela sombra de uma árvore.

O beijo

pensei tantas vezes
em como te dizer
tudo parece distante
quando penso em você
o tempo passa
a gente nem percebe
o que antes era detalhe
agora está a flor da pele
a vida é confusa
as vezes nos engana
é uma brisa leve que passa
e muda toda a trama
o futuro não existe,
mas haverá de chegar
pra sanar a ansiedade
o caminho é não parar

se distante não te vejo
me arde o desejo
pra esse dia chegar
quando eu finalmente te beijar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

poesia brasileira

Bem no Fundo
eu queria ser Leminski
 ou viver em Pasárgada
com Manoel Bandeira
Mas Ferreira Gullar me disse:
Não Há Vagas
e então cantei com Gonçalves Dias
a Canção do Exílio.
E Agora José? me perguntou Carlos Drummond
Respondi em Linha Reta
como aprendi com Fernando Pessoa
Foi quando me lembrei de Aninha e Suas Pedras,
a querida Cora Coralina,
Ao seu lado estava Cecília Meireles,
quem me mostrou uma verdadeira Reivenção
e eu disse a ela que mesmo depois de um Século
Castro Alves ainda tocava nossos corações
Até que me encontrei com Vinicíus de Moraes
e cantamos à toda poesia brasileira
um Soneto de Fidelidade.

os vãos da vida

os vãos da vida
são aqueles momentos
entre o tudo e o tudo
onde flutua o nada
os que a gente esquece
apaga da memória,
pra nunca mais lembrar

os vãos da vida
onde nada é certo
tudo é incompleto
como o vôo da galinha
que se arrasta
e não decola

os vãos da vida
sem sentido e direção
circulares, orbitais
giram em torno de si mesmo
sem ter pra onde ir
e acabam em vão

ah, mas os vãos da vida
quando acabam
não vem em vão
mas pra mostrar quem são
e pra onde vão
os aqueles e os ondes que estão